Sobre o princípio da sola scriptura

O princípio da sola scriptura foi um dos carros-chefe da reforma protestante. Ao lado dos princípios do sola fide, sola gratia, solus christus e soli deo gloria constituiu o alicerce doutrinário que procurou combater a heresia na igreja católica. Sola scriptura ou “somente a escritura” pode ser resumido na seguinte assertiva “A bíblia é a nossa única fonte de fé e prática”.

          O sola scriptura, antes de mais nada, é uma doutrina bíblica. Ela não surge na reforma protestante, assim como nenhum elemento doutrinário da reforma surgiu com a reforma. Eles surgem na bíblia. Jesus e seus apóstolos utilizaram o princípio da sola scriptura. Porém, no contexto da reforma protestante ele é revitalizado ou avivado. O estopim da reforma foi a venda de indulgências pela igreja católica, ou seja, o perdão dos pecados em troca de uma quantia em dinheiro. Isso com a aprovação do papa que detinha a infalibilidade em interpretar a bíblia, ou seja, a fonte de ensino da igreja católica é a bíblia, mas não só ela, o ensino do papa ou o magistério da igreja tem o mesmo nível hierárquico como fonte de fé e prática.

              O princípio do sola scriptura não significa que para que um ensino seja adotado é necessário que ele esteja expressamente escrito na bíblia. Na verdade, o ensino de que a bíblia é a nossa única regra de fé e prática não está escrito na bíblia. No entanto, através de exemplos e evidências incontestáveis podemos afirmar que esse princípio é bíblico. Quando Jesus foi tentado por Satanás ele recorreu as escrituras para vencer a tentação. Ele cita versículos de Deuteronômio para resistir ao diabo. (Mt 4.1-11). Jesus também declarou “errais não conhecendo as escrituras” (Mt 22.29). Jesus não disse errais por não conhecerem a interpretação dos rabinos sobre a lei ou por não conhecerem as tradições dos fariseus. Quando Jesus estava prestes a ser crucificado ele explicou aos seus discípulos que as escrituras falavam dele utilizando-a como um argumento de autoridade “E começando por Moisés, e por todos os profetas, explicou-lhes o que dele se achava nas escrituras.” (Lc 24.27).

O apóstolo Paulo também recorreu as escrituras como argumento de autoridade. Quando ele sistematizou as doutrinas do cristianismo ele recorreu ao Antigo Testamento para fundamentá-las. Ao explicar a justificação pela fé ele recorreu ao exemplo de Abraão que pela fé foi justificado. Ao aconselhar Timóteo ele foi taxativo “E que desde a infância sabes as sagradas letras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus.” (2Tm 3.15). Somente as escrituras tornam o homem sábio para a salvação. Quando Estevão estava sendo julgado pelo sinédrio ele recorreu as escrituras e somente a elas. Ele praticamente descreveu a história completa de Israel contida na bíblia o capítulo 7 de Atos para provar que os judeus tinham assassinado o messias. Pedro, logo após o pentecostes, vendo o povo admirado com o que estava acontecendo explicou-lhes que aquilo era apenas cumprimento da profecia de Joel de que dons sobrenaturais seriam dados ao povo de Deus. Depois começou a demonstrar-lhes como Jesus estava presente nas profecias do Antigo Testamento. (At 2.14-36).

Interessante que até o próprio Satanás utilizou as escrituras como suporte para sua tentação “E disse-lhe: se tu és filho de Deus, lança-te daqui abaixo; porque está escrito: aos seus anjos dará ordens a teu respeito; e: eles te susterão nas mãos, para que nunca tropeces em alguma pedra.” (Mt 4.6). Satanás sabia que a tentação não teria efeito se ele utilizasse outra fonte que não as escrituras para tentar convencer Jesus. Esses exemplos provam que o princípio do sola scriptura é bíblico. Devemos rejeitar qualquer outra fonte como guia para a nossa fé e prática. Sejam filosofias, tradições, inovações etc. Devemos ter evidências claras na bíblia para se estabelecer uma doutrina ou ensino. Quando isso não acontece o resultado é somente dissensão e intrigas.

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