O problema do uso da alegoria na interpretação da bíblia

Alegoria pode ser conceituada como uma expressão figurada de um pensamento ou sentimento. O método alegórico de interpretação usa a alegoria para descobrir um sentido oculto em um texto procura descobrir algo que através de uma leitura superficial não foi possível obter. Muitos escritores procuram utilizar uma linguagem subliminar em seus escritos para que somente o leitor mais atento perceba o que está oculto nas entrelinhas. Mas, com relação a bíblia até que ponto esse sentido oculto existe, até que ponto é saudável utilizar esse método em sua interpretação?

                 Uso de ilustrações

                      Usar o método alegórico não é a mesma coisa de usar ilustrações. O uso de uma ilustração é recomendável na exposição da bíblia, pois ela contribui para a fixação do conteúdo. Um excelente exemplo de ilustração temos em Natã quando confrontou Davi “E o SENHOR enviou Natã a Davi; e, apresentando-se ele a Davi, disse-lhe: Havia numa cidade dois homens, um rico e outro pobre. O rico possuía muitíssimas ovelhas e vacas.Mas o pobre não tinha coisa nenhuma, senão uma pequena cordeira que comprara e criara; e ela tinha crescido com ele e com seus filhos; do seu bocado comia, e do seu copo bebia, e dormia em seu regaço, e a tinha como filha. E, vindo um viajante ao homem rico, deixou este de tomar das suas ovelhas e das suas vacas para assar para o viajante que viera a ele; e tomou a cordeira do homem pobre, e a preparou para o homem que viera a ele.” (2 Sm 12.1-4). Natã usou essa ilustração para confrontar o pecado de Davi e obteve êxito. A ilustração não procura descobrir um sentido oculto no texto bíblico, antes, é um recurso didático para fixar o conteúdo de uma mensagem.

             Uso de aplicações

                Aplicar um texto à nossa realidade também não é a mesma coisa de usar o método alegórico na interpretação da bíblia. A aplicação de um texto também é saudável na medida em que “traduz” um acontecimento ou versículo bíblico para a época em que vivemos. No entanto, até mesmo na aplicação devemos tomar cuidado para não inventarmos aplicações que não tem nenhuma relação com a passagem. Por exemplo, no episódio em que Davi peca com Bate seba podemos extrair diversas aplicações: o perigo do comodismo; Como o pecado se desenvolve; um pecado conduz a outro pecado etc. A aplicação não procura “descobrir” um sentido da bíblia em que ninguém vê. 

           Uso de alegorias

           O problema em usar o método alegórico na interpretação da bíblia é porque eu posso imaginar o que eu quiser e com certeza darei um jeito para que a minha imaginação se encaixe com a bíblia. Quando os autores bíblicos a escreveram eles foram inspirados por Deus. O espírito santo tinha um propósito específico no relato bíblico, o sentido é único, não existe sentido oculto em que somente os mais espirituais e mais inteligentes descobrem. O uso de simbolismos deve ser limitado pela própria bíblia. Nós sabemos que o tabernáculo tinha elementos simbólicos porque a própria bíblia diz que assim era, não foi alguém superespiritual que descobriu ou que Deus lhe revelou. Uma alegoria bem conhecida atribuída a Orígenes e que procura interpretar a parábola do bom samaritano é esta: “O homem que estava descendo pelo caminho é Adão. Jerusalém é o paraíso, e Jericó é o mundo. Os salteadores são os poderes hostis. O sacerdote é a Lei, o levita são os profetas, e o samaritano é Cristo. As feridas são a desobediência, o animal é o corpo do Senhor, a [estalagem], que aceita todos os que desejam entrar, é a Igreja. (…) O hospedeiro da estalagem é o cabeça da Igreja, que foi confiada aos cuidados dele. E o fato de que o samaritano prometeu voltar representa a segunda vinda do Salvador.” Veja que essa interpretação não tem fundamento algum. Foi Orígenes que imaginou essa interpretação e atribuiu esse significado ao texto.

           Conclusão

           O texto bíblico tem apenas um sentido, o sentido pelo qual o espírito santo tinha em mente quando inspirou os autores da bíblia. Qualquer interpretação oculta de uma passagem bíblica pode revelar arrogância e oportunismo do intérprete.

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